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Artigo

As duas asas

Sobre a fé a razão

Pe. Anderson Cunha

Pe. Anderson CunhaPadre Anderson Santana Cunha pertence ao clero da diocese de Assis (SP). É licenciado em Filosofia e bacharel em Teologia pela Faculdade João Paulo II de Marília (SP). Atualmente é Pároco da Paróquia São José de Florínea (SP).

28/08/2020 14h11Atualizado há 3 meses
Por: Pe. Anderson Cunha

É de uma carta de São João Paulo II que tirei esse título. Nela o papa disse que a fé e a razão são como que duas asas que nos elevam para contemplar a verdade. E é sobre essas duas asas que falaremos aqui. Ao concluir esta leitura o nosso leitor estará convencido de que a razão e a fé não são opostas, mas sim complementares. Assim como são diferentes os instrumentos musicais quando se unem num ato sinfônico e em harmonia, ouve-se uma bela melodia.

O primeiro argumento a favor desta tese é que foi Deus quem criou tanto uma quanto outra. Sendo assim ambas não se contradizem. Já verificou-se momentos na história em que isso parecia muito claro, mas nem sempre foi assim. Por isso a teologia deixa claro aos seus estudantes, logo de início, que a sua missão é fazer compreender, com o uso da razão, os conteúdos da fé. Para uns teólogos crer vem antes de entender, para outros a situação é inversa, mas de qualquer forma uma não exclui a outra.

Para melhor explicar esse assunto, pode-se citar, por exemplo, o problema do fideísmo e do racionalismo. Essas situações representam dois modos totalmente distintos e nocivos de se relacionar com a fé e razão. Se por um lado o fideísmo é defendido por aqueles que divorciam a unidade entre razão e fé, o racionalismo é sustentado por quem exclui totalmente a possibilidade de que algo possa ser conhecido para além de seus esquemas racionais.

Esses dois grupos erram em suas perspectivas, pois a sabedoria se alcança com uma sadia relação entre essas duas fontes de conhecimento. E o caminho para isso é longo, e o primeiro passo necessário para os dois lados é a humildade. A humildade para reconhecer que a fé necessita da razão e que a razão possui limites inegáveis. Esse casamento é tão que feliz que, por exemplo, foi na harmonia entre fé e razão que surgiram as universidades - no período histórico tão mal compreendido que é a idade média.

A própria história confirma isso. No início do cristianismo muitos filósofos, como Justino, mártir, ao converter-se ao catolicismo fez uso de seus conhecimentos filosóficos para defender a fé católica diante dos perseguidores. Santo Tomás de Aquino harmonizou melhor do que ninguém as obras de Aristóteles com os ensinamentos de Nosso Senhor. E aqui poderíamos citar uma lista interminável de cientistas que também eram homens de fé. Apenas para aceno recordo o pai da hipótese do Big Bang, e pasmem, um padre! O sacerdote Georges Lemaître foi astrônomo, cosmólogo, matemático, físico e teólogo, e nunca abandonou a fé!

Não é possível voar com uma asa só. Quem renuncia uma dessas duas asas do conhecimento tende a viver como as galinhas, com vôos rasos. É claro que o conhecimento revelado possui alguns vantagens inegáveis - não duvidamos disso. Mas é preciso considerar também que Deus não falaria uma linguagem que não pudesse ser compreensível ao homem. Se o homem é um ser racional, tudo que Deus fala é compreensivo à sua razão. Assim é o conhecimento humano: tem origem com dois instrumentos musicais bem diferentes, mas que se forem regidos pela batuta da verdadeira sabedoria, se escuta uma linda melodia.

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